Category Archives: Opiniões

Escutar a Cidade – A escuta na dinâmica sinodal

A escuta tem de estar inscrita na dinâmica sinodal. Não pode ser de outro modo. Por ela a Igreja há de querer, desde logo, escutar a Deus, Ele que continua a falar nas circunstâncias da vida e de cada tempo. Por ela a Igreja há de educar-se na capacidade de fazer do diálogo um traço maior da vida das suas próprias comunidades. Mas, como Igreja, não podemos ficar por aqui. Não podemos, sobretudo quando o que nos move e anima (como ao sínodo que por estes tempos decorre na diocese de Lisboa) é o «sonho missionário de chegar a todos». Seria um evidente contrassenso querer chegar a «todos» sem abrir o espaço e dar o tempo para escutar e dialogar com esses «todos» a quem queremos chegar. Se também é por causa deles que se faz sínodo, então que se faça sínodo também com eles.

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O que nos cabe fazer?

Um comentário à intervenção de José Machado Pais, sobre
Desenlaces, solidão e solidariedade

Duas das ideias que ressaltaram, de uma forma muito explícita, na partilha de José Machado Pais, foram as de que o risco da indiferença em relação aos que nos são fisicamente próximos mas emocionalmente distantes (como muitos vizinhos) e o risco de tratarmos de forma diferente os nossos próximos que não somos capazes de reconhecer como iguais (como os sem-abrigo) são endógenos à nossa forma de estar em sociedade.

Dois comportamentos que fazem parte de uma sociedade que, procurando ser inclusiva, é quotidianamente produtora de exclusão. Exclusão mais estrutural – como a dos imigrantes a quem se barra a entrada, ou se expulsa do país, ou dos pobres que nem podem aspirar aos benefícios dos outros -, mas também quotidiana, ao nível dos comportamentos que cada um, a cada momento, a cada hora, pode ter. Ou não ter. Como é que, enquanto igreja-instituição, enquanto igreja-comunidade, e enquanto individualmente cristãos, isto nos interpela? O que é que podemos e devemos fazer? O que é que nos cabe fazer?​

Ângela Xavier
Professora universitária

Conhecemo-los pelas suas necessidades; e se os conhecêssemos pelo nome?

Um comentário à intervenção de José Machado Pais, sobre
Desenlaces, solidão e solidariedade

Fiquei muito sensibilizado pela abordagem pessoal de José Machado Pais na 1ª sessão do “Escutar a Cidade”. Ele poderia ter optado por trazer-nos estatísticas ou por ter definido a problemática social das pessoas sem abrigo. E tê-lo-ia feito de forma fundamentada e com o rigor que um cientista social da sua estatura coloca no seu trabalho. Mas optou por dar o nome a uma cara no meio dos números, individualizando uma pessoa com quem se foi relacionando a certa altura e que lhe passou a dizer algo mais do que números e situações tipificadas. Esta abordagem é mais rara e, a meu entender, mais preciosa e necessária. No meu trabalho diário costumamos dizer-nos a nós mesmos e a quem se oferece para fazer voluntariado connosco: “Conhecemo-los pelas suas necessidades; e se os conhecêssemos pelo nome?”

Apesar das muitas coisas boas que se fazem na nossa Cidade pelas pessoas socialmente fragilizadas, é relativamente raro encontrarmos esta abordagem mais pessoal com elas. São tantas e tão diversas as situações das pessoas que acabam a viver nas circunstâncias de sem abrigo, que procurar referir-se a elas de forma generalista (“os sem abrigo”) é uma forma de as des-humanizar, de lhes reduzir a história singular e tantas vezes riquíssima que cada um traz consigo para a rua. É, até, uma forma de as “enterrar” na sua condição de fragilidade, colocando-a na epiderme da sua identidade.

Cada pessoa é insubstituível, porque nunca ninguém mais será a soma do que cada um é. Por isso cada pessoa, ainda mais em situação de grande vulnerabilidade física, mental, social e espiritual,  merece um cuidado muito grande e uma atenção focalizada. As instituições (com honrosas excepções) têm tendência a classificar e agrupar situações e pessoas, procurando depois encontrar respostas eficazes que lidem com o maior número possível de casos. E isso compreendemos e até certo ponto aceitamos.  Mas o que rejeitamos – e que muitas pessoas na condição de sem abrigo também rejeitam – é a generalização, a imposição de vontades, caminhos e soluções que ignoram ou apequenam o percurso singular de cada uma.

Ouvir José Machado Pais dizer que “não se deixa um amigo na rua” foi (muito) difícil para a maioria de nós. E ainda bem. Havia ali algo de muito valor que todos sentimos, queremos ter e ver acolhido na nossa comunidade. Apesar do incómodo e até da dor, precisamos aceitar que nem sempre temos soluções ou podemos ser solução para os outros. Mas isso não significa que devamos ignorá-los, protegendo-nos desse incómodo e dor. Antes, podemos e devemos dar-lhes a nossa voz, como tão bem fez José Machado Pais, podemos e devemos continuar a buscar na sociedade os recursos que todos somos e podemos reunir e, sobretudo, podemos dar a nossa companhia e, sim, a nossa amizade. Tenho aprendido que essa é a maior das necessidades e o pedido mais desesperado que nos chega das “ruas” da nossa Cidade.

Alfredo Abreu
Coordenador Geral do Serve the City Lisboa​

(O Serve the City é uma rede de voluntariado que procura mobilizar cidadãos para ir ao encontro de pessoas socialmente fragilizadas.)

Um desafio ao movimento de escutar atentamente a cidade

Um comentário à intervenção de António Guerreiro, sobre
Um breve léxico do nosso tempo

Estive presente no encontro Escutar a Cidade do passado dia 15 de Janeiro. Quero começar por dizer da verdadeira inspiração inicial que foi escutar Jesus’ Blood Never Failed Me Yet de Gavin Bryars, a partir das palavras de um sem-abrigo, um texto musical soberbamente apresentado por Alfredo Teixeira. O mote para os diferentes encontros foi dado arte e fé, fé e arte acolhendo o sopro da cidade em nós.

Gostaria de sublinhar alguns aspectos da primeira apresentação, por António Guerreiro, intitulada “Um breve léxico do nosso tempo”. Ao falar da instauração de “um estado de exceção que se torna regra” a afirmação “a crise tornou-se uma forma de governo” é absolutamente certeira – e nós a deixarmo-nos governar por ela… Pareceu-me interessante a terminologia “uma vida politicamente qualificada” – privilégio de alguns? imperativo da democracia e da cidadania? simples sobrevivência do mundo tal como o vivemos?

Ao enumerar a palavra “economia” A. Guerreiro fala da “economização integral das relações humanas”: vergastada desassombrada nos tempos de hoje, nos governos, na tomada de decisão política, na lavagem ao cérebro e na des-politização a que todos estamos a ser sujeitos. Mas, também, na forma como nos relacionamos uns com os outros (“this is all about Me”). Uma economia que nos “espolia do futuro”, nas suas palavras.

Numa interpelação de um “não-crente” – não sei bem o que significa isso, António Guerreiro – pela minha parte escutei e absorvi a voz de um crente – as suas palavras dirigidas aos presentes na sala desafiaram-nos ao movimento de escutar atentamente a cidade com os ouvidos e os olhos do Evangelho de Cristo numa re-significação da Fé como afirmação da possibilidade de um futuro para todos, mesmo os espoliados da/na cidade.

Teresa Vasconcelos
Movimento GRAAL

“Não se deixa um amigo na rua”

Um comentário à intervenção de José Machado Pais, sobre
Desenlaces, solidão e solidariedade

Escutando as vozes da cidade, no silêncio da noite, o que senti foi um profundo estremecimento resultante da certeza de que Jesus blood never failed me yet [música de Gavin Bryars] escutada na voz de alguém que apenas tem a sua dignidade de Ser, à lembrança de que “não se deixa um amigo na rua”, recordada por alguém que tudo tendo, se experimenta só por deixar alguém querido para trás. Como nos disse Machado Pais “o reverso da solidão são os laços que tecemos”. Por isso, agradeço profundamente a oportunidade de silêncio que, permitindo-me escutar as vozes da nossa cidade e da nossa sociedade, nos renovam a bondade, a gratuidade e a esperança, enquanto fatores fundamentais para continuarmos ao serviço reconstruindo sentidos de Vida e de Paz em ComUnidade.

Henrique Joaquim
Presidente da direcção da Comunidade Vida e Paz