Escutar desafia-nos a agir

Escutar a cidade é um exercício nada fácil pela nossa impreparação no relacionamento com a complexidade de um espaço e de um tempo que parecem uma explosão do presente, sem o filtro da memória e, aparentemente, sem qualquer exigência de futuro. Construímos cidades à medida de um progresso, espaços anónimos de competitividade e de indiferença, relegando para segundo ou terceiro plano a gente que nelas habita, justa medida do verdadeiro progresso.

Escutar a cidade é, por isso, escutar e dar voz aos que foram empurrados para os becos escuros da vida em nome de um pretenso futuro «clean» onde não haveria lugar para os impreparados, para os não competitivos, para os já gastos pelo tempo, enfim, para todos aqueles e aquelas que tinham como único sonho o de viver. A cidade parece ser um lugar de chegada, definitivo, de onde não se parte, porque nela parecem residir todas as expetativas e todas as possibilidades de um dia se cumprirem nela todos os sonhos. Mas ela tornou-se também um lugar cruel, lugar de rutura temporal e espacial com o lugar de onde se vem, lugar onde não existe espaço nem tempo para o futuro. Encurralados em becos escuros, sem saída, entregues à solidão e ao abandono, longe do olhar dos que apenas passam mas que pensam a cidade como pertença sua e dos seus desejos de poder.
Mas foi na cidade que os Homens e Mulheres de cada tempo imaginaram novas cidades, novas formas de viver na e a cidade. Ela foi o espaço onde se imaginaram e se aplicaram novas formas de relação entre o exercício do poder e os seus habitantes, foi lugar de lutas, de revoluções, de movimentos de vanguarda… Ela foi o espaço onde couberam sonhos, vitórias, derrotas, desilusões, lugar de encontros e desencontros, de aprendizagem e confronto com a diferença… Ela é o lugar onde histórias (memória) se entrelaçam, se relacionam (presente) e se reescrevem (futuro). A cidade foi o lugar onde o espaço da nossa aldeia se tornou do tamanho do mundo.

Escutar implica apurar os sentidos, descobrir, entre o ruído e o turbilhão de falsas propostas, sinais da vida que teima em se afirmar e dos pequenos gestos que lhe dão forma. Há sempre alguém que resiste! Escutar exige silêncio, disponibilidade para acolher a diferença e humildade para, também nós, nos reinventarmos. Ou nos convertermos?! Lembremo-nos que também um dia nos será perguntado: “Que fizeste do teu irmão?” e que só poderemos encontrar a resposta na vivência quotidiana do Evangelho.
A cidade sempre foi e continuará a ser o espaço onde cabem todos os futuros, a nós cabe-nos escutar, procurar entender e agir.

José Centeio

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