Conhecemo-los pelas suas necessidades; e se os conhecêssemos pelo nome?

Um comentário à intervenção de José Machado Pais, sobre
Desenlaces, solidão e solidariedade

Fiquei muito sensibilizado pela abordagem pessoal de José Machado Pais na 1ª sessão do “Escutar a Cidade”. Ele poderia ter optado por trazer-nos estatísticas ou por ter definido a problemática social das pessoas sem abrigo. E tê-lo-ia feito de forma fundamentada e com o rigor que um cientista social da sua estatura coloca no seu trabalho. Mas optou por dar o nome a uma cara no meio dos números, individualizando uma pessoa com quem se foi relacionando a certa altura e que lhe passou a dizer algo mais do que números e situações tipificadas. Esta abordagem é mais rara e, a meu entender, mais preciosa e necessária. No meu trabalho diário costumamos dizer-nos a nós mesmos e a quem se oferece para fazer voluntariado connosco: “Conhecemo-los pelas suas necessidades; e se os conhecêssemos pelo nome?”

Apesar das muitas coisas boas que se fazem na nossa Cidade pelas pessoas socialmente fragilizadas, é relativamente raro encontrarmos esta abordagem mais pessoal com elas. São tantas e tão diversas as situações das pessoas que acabam a viver nas circunstâncias de sem abrigo, que procurar referir-se a elas de forma generalista (“os sem abrigo”) é uma forma de as des-humanizar, de lhes reduzir a história singular e tantas vezes riquíssima que cada um traz consigo para a rua. É, até, uma forma de as “enterrar” na sua condição de fragilidade, colocando-a na epiderme da sua identidade.

Cada pessoa é insubstituível, porque nunca ninguém mais será a soma do que cada um é. Por isso cada pessoa, ainda mais em situação de grande vulnerabilidade física, mental, social e espiritual,  merece um cuidado muito grande e uma atenção focalizada. As instituições (com honrosas excepções) têm tendência a classificar e agrupar situações e pessoas, procurando depois encontrar respostas eficazes que lidem com o maior número possível de casos. E isso compreendemos e até certo ponto aceitamos.  Mas o que rejeitamos – e que muitas pessoas na condição de sem abrigo também rejeitam – é a generalização, a imposição de vontades, caminhos e soluções que ignoram ou apequenam o percurso singular de cada uma.

Ouvir José Machado Pais dizer que “não se deixa um amigo na rua” foi (muito) difícil para a maioria de nós. E ainda bem. Havia ali algo de muito valor que todos sentimos, queremos ter e ver acolhido na nossa comunidade. Apesar do incómodo e até da dor, precisamos aceitar que nem sempre temos soluções ou podemos ser solução para os outros. Mas isso não significa que devamos ignorá-los, protegendo-nos desse incómodo e dor. Antes, podemos e devemos dar-lhes a nossa voz, como tão bem fez José Machado Pais, podemos e devemos continuar a buscar na sociedade os recursos que todos somos e podemos reunir e, sobretudo, podemos dar a nossa companhia e, sim, a nossa amizade. Tenho aprendido que essa é a maior das necessidades e o pedido mais desesperado que nos chega das “ruas” da nossa Cidade.

Alfredo Abreu
Coordenador Geral do Serve the City Lisboa​

(O Serve the City é uma rede de voluntariado que procura mobilizar cidadãos para ir ao encontro de pessoas socialmente fragilizadas.)

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